O perdão diante de uma perda

            “Reconhece o Senhor em todos os seus caminhos, e Ele endireitará as suas veredas” . Provérbios 3:6

 

Há alguns dias recebi notícias de dois falecimentos que tocaram fundo meu coração e me fizeram chorar. O primeiro foi de uma jovem esposa e mãe, com um quadro grave de leucemia. O segundo, de uma filha, 26 anos, acometida de um AVC, seguido de parada cardíaca. Pelos testemunhos que se seguiram, tanto uma como a outra, eram duas preciosidades que temiam e glorificavam a Deus. Duas grandes perdas.

Em ambos os casos, a dor que nos arrasa é a da comparação: “E se fosse meu filho?”, “E se fosse eu a deixar meus filhotes pequenos e meu marido tão jovem e apaixonado?” E a nossa mente viaja, tentando achar explicações, ou deixando escapar uma ponta de indignação, um tímido “por quê?”...  Sim, porque nossa alma sempre vai procurar alguém para culpar.

E na verdade, embora essa seja a verdadeira* natureza de nossas almas, se nos permitirmos enveredar por esse caminho, será difícil ao final evitar a amargura. E a amargura é falta de perdão, até mesmo para com o Senhor, que permitiu a calamidade sobre nós.

Felizmente, ouvi doces palavras de gratidão a respeito dessas duas vidas queridas que partiram. Eu chorei, mas fui consolada.

É assim que o Senhor nos ensina em Sua palavra. Podemos chorar diante das tragédias que vêm sobre nós, e certamente sentir a dor da perda, sem contudo perder a fé. Sem tirar os olhos daquele que é O Consolador, O Príncipe da Paz. Ele sim, endireitará as nossas veredas, e tem em seus planos não apenas a restauração, mas o resultado impressionante que se segue à tempestade.

Em tudo isso, há alguém na palavra de Deus que me salta ao coração, e que viveu uma grande tragédia. Essa é Noemi, e sua vida é narrada no livro de Rute.

Noemi sofreu as consequências das decisões erradas de seu marido, Elimeleque. Assim foi sua história: Houve uma fome na região de Belém, onde o casal e seus dois filhos moravam. Diante de tal situação, ele achou por bem sair dessa terra e habitar em Moabe. Não há registros de que tal direção tenha vindo de Deus.

Acontece então que morreu Elimeleque, deixando Noemi viúva com seus filhos. Eles se casaram com mulheres moabitas, e uma delas era Rute. Morreram também seus filhos, ficando as três viúvas.

Quando penso na situação desta mulher, que obedeceu ao seu marido, se mudando para uma terra estranha, e agora se encontrando totalmente desamparada, também penso no quanto ela poderia viver praguejando contra ele, que a levou a deixar tudo o que tinha em Belém, e a perder tudo o que lhe restava de mais precioso em Moabe. Poderia nunca perdoá-lo.

Também imagino que grande amargura ela poderia guardar de Deus, que viu tudo e não a “protegeu” do sofrimento.

Na verdade, diante de suas perdas, ela não enxergou qualquer propósito benevolente da parte de Deus em tudo o que estava passando. Se autodenominou amarga, e disse que Ele “descarregou sua mão” sobre ela (cap. 1, vs 13). Naturalmente Noemi passava pelo período da dor e do luto, a grande tribulação de sua alma. Nessa fase de nossas vidas, o Senhor atravessa conosco, muitas vezes sem explicar nada, apenas nos consolando em seu silêncio.

Mas há um momento crucial em nossa travessia pelo vale da sombra da morte: permanecer ou sair de lá.

Noemi tomou a decisão de voltar para Belém, e sua nora Rute foi com ela. Belém significa “casa do pão”. Aí está uma atitude que aponta para o espiritual em nossas vidas. Voltar para Belém com a alma latejando significa: “Está bem, Senhor, dói demais, mas eu sei que tudo foi permissão tua, estou voltando para o meu esconderijo.”

Creio, em minha interpretação de tudo isso, que o Senhor anseia por dizermos estas palavras. Basta para que Ele dê início ao recomeço. Em meio a tanta dor de momentos inexplicáveis, não temos condições de administrar nada. É então que somos levados a entregar tudo a Ele, e reconhecê-lO em todos os nossos caminhos...

O Senhor endireitou os caminhos de Noemi, ela certamente perdoou seu marido por tê-la levado a tal condição, mas somente porque concluiu em algum momento que todas as coisas estavam no controle soberano de Deus.

Sua história termina lindamente. Um recomeço impressionante. Sua querida e dedicada nora se casou com Boaz, um parente que estava disposto a resgatar o que pertencia à família de Elimeleque, trazendo a prosperidade novamente à sua casa.

Rute e Boaz foram avós do rei Davi, e portanto, entraram para a genealogia de Jesus. E Noemi, foi considerada feliz e abençoada pelas mulheres ao seu redor.

Que grande bênção quando deixamos para trás o que nos feriu, com o coração livre e perdoador. Confiar no Senhor e reconhecer que nossos caminhos estão cuidadosamente sendo planejados por Ele, traz a certeza de um futuro cheio de bem aventuranças e paz sem fim.

 

Alessandra Megherdijian Maprelian
Equipe  Mulheres no Espelho

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