Fotos IBP

Crise no casamento

O que está acontecendo com nossas famílias? 

 

Paulo Falçarella é pastor da Igreja Batista do Povo e terapeuta familiar. Junto com sua esposa, Marília Falçarella, lideram o Ministério de Famílias da igreja e são conferencistas sobre o tema. Nesta entrevista, pastor Paulo aponta os principais problemas atuais que assolam o matrimônio.

 

Boa Palavra - Segundo dados do IBGE, os casamentos no Brasil estão cada vez menos duradouros. A que o senhor acha que se deve esta triste estatística? 

Paulo Falçarella - Obviamente temos diversos motivos contribuindo para este cenário, mas concentram-se em dois fatores principais: as expectativas de satisfação e felicidade com relação ao matrimônio e ganhos e perdas econômicos, segundo pesquisa feita pela Prof. Regina Madalozzo do Insper. Mas isso tem uma origem, e ela se encontra nas profundas mudanças sociais, com a relativização dos valores de família. 


 

BP - O senhor certamente já aconselhou centenas de casais, quais as causas mais comuns de queixas entre os cônjuges?

PF - Basicamente, temos um tripé virtuoso que muitos casais têm descuidado bastante: comunicação relacional, sexo e dinheiro. Estes três são campeões na promoção das crises conjugais. Quanto a comunicação, nos últimos 30 anos, vemos o crescimento no volume de conexões e ao mesmo tempo a decadência na profundidade dos relacionamentos. O diálogo conjugal e por consequência familiar, empobreceu. Na questão sexo, gostaria de expandir este item, destacando a questão da infidelidade conjugal, que hoje passa por uma verdadeira síndrome, onde a imoralidade sexual tem imprimido pressões enormes na relação marido e mulher. O consumo de pornografia, a extrema exposição da vida pessoal na internet, acabam por compor um quadro de estresse enorme na dinâmica conjugal. E quanto ao dinheiro, que melhor se definiria por administração dos bens e riquezas, temos ainda uma grande influência da cultura consumista, que promove a satisfação de desejos com prejuízo do atendimento das necessidades. Isso tem levado os casais à sobrecarregarem o orçamento doméstico gerando um estado de insegurança, desconfiança e desesperança.

 

BP - E como combater essas queixas sem que se abra a porta do divórcio?

PF - Lembrando a mesma pesquisa que citei, da Prof. Regina Madalozzo, do Insper, tudo é uma questão de princípios e valores. A maneira pela qual o casal enxerga a vida e suas demandas os levará ao sucesso ou fracasso. Nesta pesquisa, foi revelado que casais que professam a fé em Deus e que tem um estilo de vida simples (não necessariamente pobre materialmente falando) tem mais paz e estabilidade na relação, inclusive com propensão muito menor ao divórcio. Aqueles que valorizam o casamento como uma relação de aliança tem mais condições de vencerem os períodos críticos de ajustes na relação conjugal, trabalhando com amor, respeito, esperança e perseverança e jamais admitindo o divórcio como solução.


 

BP - Na sua opinião, o que é importante na vida conjugal para se evitar que crises tornem-se insuportáveis ao ponto de um nem querer olhar para o rosto do outro?

PF - Como pastor e terapeuta familiar, estou convicto que todo casal poderá crescer em seu relacionamento de forma saudável se preservarem princípios que são vitais, como: o princípio da aliança, que defende que o casamento é para a vida toda. Sua vitalidade não está firmada no desempenho ou mérito do cônjuge e sim no compromisso de amor incondicional das partes. Aqui o que é importante é o Amar e ser Amado. Outro princípio é o da graça, que entende que todos somos falhos e limitados, portanto, passíveis de erro e necessitados de perdão. Sem perdão nenhum relacionamento é sustentável. O destaque neste ponto é Perdoar e Pedir Perdão.

Outro princípio é o da valorização do outro. Aqui, cada cônjuge tem prazer no sucesso do outro e se empenha para promover o seu crescimento e felicidade. Este princípio destaca o Servir e Ser Servido. E por último, o princípio da intimidade. Uma parte muito importante e que vem sendo tão banalizada na relação conjugal. A intimidade é comunicação de alto nível. Por isso requer dedicação, doação, transparência e integridade. Aqui está em jogo o Conhecer e Ser Conhecido. Não pode haver segredos entre o casal, nem meias palavras. O matrimonio deve ser uma relação de total confiança e respeito. Da cozinha até à cama. 


BP - Qual o papel da Igreja no que diz respeito ao casamento de seus membros?

PF - O apóstolo Paulo escrevendo ao seu discípulo Timóteo, define bem o papel da igreja: “mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade.” (1 Timóteo 3:15 NVI). Coluna e fundamento da verdade. Esse é o papel da igreja. O pensamento mundano e secularizado vem buscando subtrair o valor e relevância da igreja e por consequência, da fé. Chamam-nos fundamentalistas porque não abrimos mão dos valores e princípios bíblicos com respeito à vida, às instituições, entre as quais a família é a principal. Defendemos portanto, por princípio bíblico, que o casamento deve ser: monogâmico (um só cônjuge), monossomático (uma só carne - implica a pureza e fidelidade), heterossexual (apenas entre um homem e mulher) e Indissolúvel (para toda a vida, enquanto viver o cônjuge). Portanto, a igreja em relação ao casamento, deve ser promotora e protetora dos votos matrimoniais e serva das famílias, ensinando, encorajando, intervindo quando solicitada e edificando os lares à partir da relação matrimonial, lutando com todo empenho pela manutenção e saúde do casamento de seus membros e desencorajando o divórcio.

O divórcio, comprovadamente, é um elemento desestabilizador do sistema social, trazendo em seu rastro: aumento da criminalidade, queda do desempenho acadêmico, queda na produtividade no trabalho, aumento das doenças psico-emocionais, para citar alguns. Se desejamos uma sociedade mais justa, equilibrada e saudável, nosso foco deve ser a edificação dos lares através da valorização do casamento. Como o escritor aos Hebreus exorta: "Bendito entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula.." (Hebreus 13:4). Falemos bem um do outro, falemos bem do casamento! A família, a sociedade, a igreja, e tudo mais agradecerão. 


 

Topo